Olá, nobre leitor!

Estava eu a ler o jornal O Globo quando me deparei com a seguinte manchete: “Proibição a condução coercitiva é ‘manifestação contra investigações’, diz Barroso” (https://oglobo.globo.com/. Acesso em 18/06/2018). Imediatamente me veio à cabeça a possibilidade de discorrer sobre o assunto também. Mas calma aí! Antes que você me compreenda mal, permita-me esclarecer melhor minha intenção. Não pretendo aqui julgar o mérito da questão envolvendo o STF, o MPU, a PF e tantos outros personagens que vêm protagonizando essa longa história de corrupção que assola nosso país. Quero simplesmente esclarecer a você, prezado leitor, o porquê da ausência do emprego do acento grave indicativo de crase na transcrição da fala do ministro Barroso – que, aliás, causou muita plêmica e deixou algumas suspeitas no ar. Epa! Continuo me referindo aos aspectos gramaticais tão somente. Peço vênia se isso ainda não ficou claro.

O foco da questão tem a ver com o nome “proibição” (termo regente) e seu complemento: “a condução coercitiva” (termo regido). Algum defensor da crase poderia sustentar veementemente o emprego do acento grave alegando que, na tal estrutura, a preposição “a” exigida pelo termo regente se articula com o artigo definido “a” que acompanha o substantivo feminino “condução” (a + a = à). Os concurseiros de plantão diriam, de forma mais direta e “maceteada”, que bastaria substituir a palavra “condução” por qualquer uma de gênero masculino para ficar evidente a existência tanto da preposição quanto do artigo: “Proibição ao professor…”. Possivelmente, eles diriam ainda: “Se usamos ao(s) diante do masculino, devemos usar à(s) diante do feminino”.

Acontece que é interessante conhecer a fundo os “autos do processo” antes de emitir um julgamento acerca da matéria. O eminente gramático Domingos Paschal Cegalla, por exemplo, nos ensina que, “Se não houver a presença da preposição ou do artigo, não haverá crase e, consequentemente, não se acentuará o a ou as” (Novíssima gramática da língua portuguesa, pág. 276). Um pouco mais adiante, o autor reforça essa lição e diz: “O acento indicador de crase só tem cabimento diante de palavras femininas determinadas pelo artigo definido a ou as e subordinadas a termos que exigem a preposição a” (pág. 276; destaques nossos). E, dando o caso por transitado em julgado, Cegalla fornece-nos, nas páginas 277 e 278 da sua obra, exemplos de casos em que substantivos femininos foram usados em sentido geral e indeterminado, portanto repelindo o emprego do artigo definido a(s) e, consequentemente, afastando a possibilidade de ocorrência da crase. Aqui, eu transcrevo apenas um deles: “‘Depois comprara um cone de papel com pipocas recendentes a gordura vegetal.’ (Érico Veríssimo)”.

Voltando, então, para a manchete do jornal, nota-se que o ministro Barroso empregou o termo “condução coercitiva” em sentido geral, indeterminado. Ou seja, ele não se referiu a uma condução coercitiva específica ou determinada, mas sim a uma condução coercitiva qualquer. Portanto tem razão o jornalista ao transcrever a fala de Sua Excelência sem empregar o acento grave indicativo de crase.

Vejamos agora como esse assunto já foi cobrado em prova.

(CESPE/FUB/MÉDICO/2011)

[…]

16 Informação. “Tudo o que eu aprendo está sujeito à imediata erosão”, afirma. Isso provoca o que o autor chama de “liquidez
[…]

Mao Barros e Victor Guy. A Internet e a mente. In:

Época Negócios, abr./2010, p. 82 (com adaptações).

O uso do sinal indicativo de crase em ‘à imediata erosão’ (L.16-17) é obrigatório.

Comentário:

Apesar de algumas controvérsias por parte de alguns candidatos à época do concurso, o gabarito oficial foi mantido. É que o nome “sujeito” rege preposição “a”, mas o seu complemento pode ser usado sem o artigo definido “a”, ou seja, sem a outra condição para que ocorra a crase. Em outras palavras, a expressão “imediata erosão” pode ser usada em sentido genérico, como de fato o foi. Compare com os exemplos abaixo:

Ele está sujeito a multa. (Que tipo de multa?)

Ele está sujeito à (a + a) multa prevista no regulamento. (Está claro que se trata de uma multa específica)

– O exército dos invasores, semelhante a serpe monstruosa… (Alexandre Herculano, citado por Cegalla, pág. 278, em seu livro já mencionado neste artigo)

Resposta – Item errado.

Professor Albert Iglésia.

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Autor(a): Professor Albert Iglésia

É graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB) e tem especialização em Língua Portuguesa. Ministra aulas voltadas para concursos públicos desde 2001. Iniciou suas atividades como professor no Rio de janeiro. Atualmente, leciona aulas de interpretação de texto, gramática e redação oficial em alguns cursos preparatórios em Brasília. Além disso, é professor do ensino médio de um colégio público federal no DF. Já atuou como instrutor da Esaf, da Casa Civil da Presidência da República e de outras instituições voltadas para a capacitação de servidores públicos.

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