Olá, nobre leitor!

O assunto a ser tratado neste artigo é, especificamente, o emprego de pronomes pessoais do caso reto e do caso oblíquo. Quais os motivos que nos fazem escolher um em vez do outro em determinadas frases?

Antes de esclarecer o ponto conflitante, eis uma breve exposição sobre a conceituação e a classificação dessa rica classe gramatical.

Pronome Palavra que substitui o nome (pronome substantivo) ou que o acompanha (pronome adjetivo) para tornar claro o seu significado. Existem seis classes distintas:
1)   pessoal Indica diretamente as pessoas do discurso (no singular ou no plural): 1ª pessoa: quem fala; 2ª pessoa: com quem se fala; 3ª pessoa: de quem se fala. Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas(do caso reto). Me, te, se, lhe, o, a, nos, vos, se, lhes, os, as(do caso oblíquo átono). Mim, comigo, ti, contigo, si, consigo, conosco, convosco(do caso oblíquo tônico). Também são pessoais os pronomes de tratamento: você, senhor, senhora, vossa senhoria, vossa excelência, etc.
2)   possessivo Refere-se às pessoas gramaticais, atribuindo-lhes a posse de algo: meu, minha, meus, minhas, nosso, nossa, nossos, nossas, teu, tua, teus, tuas, vosso, vossa, vossos, vossas, seu, sua, seus, suas.
3)   demonstrativo Indica a posição dos seres em relação às pessoas do discurso, situando-os no tempo e no espaço.
1ª pessoa: este, esta, estes, estas, isto.
2ª pessoa: esse, essa, esses, essas, isso.
3ª pessoa: aquele, aquela, aqueles, aquelas, aquilo.
4)   relativo É aquele que, em uma oração, se refere a um termo constante em oração anterior, chamado antecedente. Exemplo: O avião que chegou estava danificado. São pronomes relativos: que, quem, quanto(s), quanta(s), cujo(s), cuja(s), o qual, a qual, os quais, as quais.
5)   indefinido Refere-se à terceira pessoa do discurso num sentido vago ou exprimindo quantidade indeterminada. Exemplos: Quem espera sempre alcança. Alguns podem flexionar-se em gênero e número. São pronomes indefinidos: algum, alguns, nenhum, nenhuns, qualquer, quaisquer, ninguém, todo, tudo, nada, algo etc.
6)   interrogativo É aquele usado para formular uma pergunta direta ou indireta: que, quem, qual, quanto.

Diferenças quanto ao emprego dos pronomes pessoais do caso reto e do caso oblíquo:

a) Ele virou ela. – Na função de sujeito e de predicativo, o pronome pessoal utilizado será, via de regra, do caso reto.

b) Quero falar com ele.

Sou útil a ele.

Vi-o na rua.

Serão empregados os do caso oblíquo nas demais funções sintáticas (complemento verbal, complemento nominal etc.).

Atente para o fato de que esses pronomes são frequentemente utilizados para promover a coesão e a coerência textual.

c) Eu contei a ti o que acontecera.

Você terá de viajar com nós dois.

Você terá de viajar conosco. (= com + nós)

Os pronomes oblíquos tônicos são precedidos de preposição. Usa-se com nós ou com vós quando tais expressões vêm acompanhadas de elementos de realce, numeral, pronome ou oração adjetiva.

Cuidado! Não vá se meu saber. / Todos saíram, exceto eu [saí].

Mesmo diante de preposição, o pronome pessoal do caso reto será empregado quando for sujeito de verbo, ainda que este esteja elíptico.

d) Maria fez aniversário. Pedro deu-lhe um presente. (“deu” = VTDI; “um presente” = OD)

Maria fez aniversário. Pedro a presenteou. (“presenteou” = VTD)

Como complementos verbais, o(s)e a(s) desempenham função de objeto direto; lhe(s), de objeto indireto.

Atenção!O pronome oblíquo lhe pode equivaler-se a um possessivo, caso em que transmitirá noção de posse: Pediu-lhe os brinquedos emprestados. / Pediu os seus brinquedos emprestados / Pediu os brinquedos dele emprestados.

e) Mandei-o sair da sala.

Ouvi-as bater na porta.

Em construções cujo verbo principal é causativo (mandar, deixar, fazer) ou sensitivos (ver, ouvir, sentir), o(s) e a(s) desempenham função de sujeito do verbo (infinitivo) da oração subordinada.

Agora veja como a matéria já foi cobrada em provas de concursos públicos.

(Vunesp/IAMSPE/Auxiliar de Enfermagem)

Considere as frases:

I. Pediram-me que eu entregasse o relatório médico à enfermeira.

II. Queriam falar conosco, no sábado, às quinze horas.

III.  Avisaram nós que a paciente foi transferida à uma outraenfermaria.

O emprego dos pronomes e o uso da crase estão corretosapenas em

a) I.

b) II.

c) III.

d) I e II.

e) II e III.

Comentário:

Item I: na função de complemento verbal (objeto direto e objeto indireto), o pronome pessoal adequado é o oblíquo (me, te, se, nos etc.). Na função de sujeito, o adequado é o do caso reto (eu, tu, ele…). No período, “me” funciona como objeto indireto de “Pediram” e “eu”, como sujeito de “entregasse”. A crase decorre da fusão entre a preposição “a” exigida pela regência do verbo entregar (algo a alguém) e o artigo feminino “a” que acompanha o substantivo “enfermeira”.

Item II: usa-se com nós ou com vós quando tais expressões vêm acompanhadas de elementos de realce, numeral, pronome ou oração adjetiva. Caso contrário, as formas adequadas são conosco convosco, como na questão da prova. Nas locuções adverbiais femininas (à vista, às claras , à esquerda, à direita etc.) a crase surge obrigatoriamente.

Item III: o primeiro erro diz respeito ao uso do pronome pessoal do caso reto “nós” para completar o sentido do verbo avisar. Na função de objeto (direto ou indireto), usa-se o pronome pessoal do caso oblíquo átono ou tônico: Avisaram-nos (ou ainda: Avisaram a nós). Também há problema com o acento indicativo de crase, pois ela não ocorre antes de palavras de sentido indefinido (artigo ou pronome indefinido, por exemplo). Na prática, troque a palavra feminina “enfermaria” por uma masculina, “consultório, por exemplo: a paciente foi transferida a um outro hospital. Percebeu que o “a” é apenas preposição, que não existe aí fusão com um artigo?

Resposta: D.

Abraços!

Professor Albert Iglésia.

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Autor(a): Professor Albert Iglésia

É graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB) e tem especialização em Língua Portuguesa. Ministra aulas voltadas para concursos públicos desde 2001. Iniciou suas atividades como professor no Rio de janeiro. Atualmente, leciona aulas de interpretação de texto, gramática e redação oficial em alguns cursos preparatórios em Brasília. Além disso, é professor do ensino médio de um colégio público federal no DF. Já atuou como instrutor da Esaf, da Casa Civil da Presidência da República e de outras instituições voltadas para a capacitação de servidores públicos.

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