Na primeira semana que comecei a estudar para concurso público eu tive um insight muito importante. Tão importante que eu atribuo parcela considerável da minha aprovação a ele. Aliás, não só minha aprovação num concurso público, mas de quase todos os projetos em que fui bem sucedido.

Nas primeiras páginas de cada livro eu pensava: “gente, isso é chato demais! Se eu estou achando isso chato, a maioria deve estar achando também. Poucas devem ser as pessoas que aguentam ficar estudando isso por mais de um ano”.

Bingo!

A revelação estava clara em minha mente. Se eu mantivesse meus esforços, iria amadurecer nas disciplinas, superar a concorrência e ser aprovado. Era apenas uma questão de manter a “pegada”.

Para tanto, escolhi uma estratégia bem simples. Iria começar a estudar pouco tempo por dia e aumentar gradativamente à medida que meu “preparo físico” fosse melhorando. E, para garantir meu amadurecimento nas disciplinas, eu escolhi um combo de matérias que sempre caiam nos concursos que desejava fazer.

Militares adoram dar nomes significativos aos seus planos. Chamei minha estratégia de “engatinhe, ande e corra”. Na verdade, poderia começar com “arraste-se” ao invés de “engatinhe”. Isso porque eu comecei estudando 30 minutos por dia. E mantive esse ritmo por seis meses, quando finalmente estava mais resistente para alçar voos mais longos.

E assim fui. Engatinhei, andei e, finalmente, corri rumo à vitória.

Para você ter uma ideia do efeito de minha estratégia, no início dos meus estudos eu me lembro que levei cerca de duas horas para resolver seis questões de licitações em contratos, assunto da disciplina Direito Administrativo. Quando fiz o concurso público da SUSEP, no último mês de preparação, resolvi duas mil questões de direito administrativo (fora as outras disciplinas). Isso aconteceu mais ou menos um ano e meio depois de ter começado a estudar.

Não foi apenas a estratégia em si que me levou à aprovação, mas ter me mantido fiel a ela. Eu tinha princípios sólidos, que escolhi de maneira consciente e estava certo de que seria aprovado caso os seguisse. Dentre todos os princípios, abaixo os mais importantes:

– manter o foco dos meus esforços em uma área. Poderia abrir o melhor concurso do mundo em outra área. Eu não faria. E de fato abriu. E não foram poucos. No ano em que comecei a estudar abriram milhares (isso mesmo, milhares) de vagas para outras áreas. Tive muita vontade de abandonar meu foco para me arriscar em outros concursos. Mas me lembrei dos meus princípios e sabia que princípios são como o norte de uma bússola. Se você abandoná-los, você se perde. Manter o estudo das mesmas disciplinas possibilitou com que eu amadurecesse muito rapidamente nessas disciplinas, o que me levou a uma aprovação mais rápida que esperava.

– aumentar gradativamente  a velocidade de meus estudos. Como comecei pequeno e fui galgando conhecimento com o passar do tempo, a evolução ocorreu de maneira natural e paulatina. Tive tempo para adequar minha rotina e participar da infância do meu filho. Olhando de uma posição no futuro, vejo que realmente foi tudo muito natural. Houve esforço, mas como ocorreu de maneira distribuída no tempo, respeitando os limites, não houve sofrimento ou desespero.

– aperfeiçoar habilidades sutis e amadurecer nas matérias ao invés de me preocupar se o edital está próximo. Confesso que nem me preocupava muito se o concurso X, Y ou Z estava próximo ou se iria ocorrer. Foquei toda minha energia em melhorar o meu conhecimento no conteúdo e me aperfeiçoar como um todo. Sabia que se me tornasse mais organizado, disciplinado e calmo, meu rendimento seria melhor. Além disso, sabia também que a prova do concurso é uma prova de conhecimentos. Ou seja, eu teria que ficar bom no conteúdo das disciplinas e nada mais. Essa mudança de perspectiva praticamente anulou minha ansiedade, pois o foco passou a ser o processo, não o produto. Minha missão era me tornar um pouquinho melhor a cada dia, não passar num bom concurso público (o que acabaria acontecendo como consequência). Passar na Receita Federal, no TCU ou em qualquer concurso bom pode parecer algo distante demais. E é difícil arrumar motivação quando nem sequer enxergamos o horizonte. Mas se tornar uma pessoa mais disciplinada e ler com atenção aquele capítulo é algo que está ao seu alcance. Pode ser feito hoje.

Ter poucos princípios sólidos ajudará que você mantenha o rumo de sua embarcação e evitará que você caia em armadilhas pelo caminho. Cumpre reforçar que tudo foi feito de maneira consciente. Não comecei meus estudos devagar, pois estava com preguiça. Mas sim porque tinha plena consciência de que um período de acomodação é necessário em toda nova empreitada.

Miopia das entrevistas

A pessoa míope consegue ver objetos próximos com nitidez, mas os distantes são vistos de maneira embaçada. Quando lemos a história de alguém vitorioso e não nos aprofundamos em suas causas, é como se fôssemos míopes. Não conseguimos enxergar o processo como um todo, apenas aquele ponto próximo.

Ao tomar conhecimento da aprovação de alguém, somos influenciados pelo nosso julgamento. Tendemos a acreditar que aquela vitória ocorreu de forma abrupta, num processo revolucionário de mudança. A pessoa começou a estudar ontem e passou hoje. Tentamos imitar e acabamos nos transformando em cópias mal feitas daquele aprovado. Quando notamos que não conseguimos estudar o mesmo tanto ou aplicar as técnicas com a mesma perfeição, a gente se sente mal e acha que aquilo não nos pertence.

Não se engane. Todos, em maior ou menor grau, construíram suas aprovações no silêncio diário de suas respectivas escrivaninhas. Não veio um raio laser do céu e transformou aquela pessoa num ciborgue. A cada página lida, a cada questão respondida, o impulso foi ganhando força, acumulando energia, até que o rompimento ocorresse.

Nesse processo de superação, a aceleração constante e gradual é a marca dos bem sucedidos. Ninguém saltou do zero até a aprovação sem antes ter passado por um processo lento de construção de conhecimento.

O caminho do desespero

Ainda que você precise passar logo num concurso público, você não conseguirá pular o estágio maçante de sentar e estudar todos os dias. Caso você tente correr antes de engatinhar, vai acabar desanimando, por não receber, tão rápido como deseja, os louros dos seus esforços.

Infelizmente, por motivos diversos, a maioria dos candidatos não entende isso. Querem voar, sem antes estarem preparados. É como se você treinasse uma semana para uma maratona e alimentasse uma expectativa monstruosa de que sairá vencedor. A decepção é certa. A maior parte inverte a lógica do processo. Começa correndo e acaba se arrastando.

No intuito de alimentar o ego, que clama por reconhecimento e vitória, o candidato deprimido começa a fazer todos os concursos que aparecem, na esperança de acabar logo com o sofrimento de ter que estudar todos os dias. Afinal de contas, o seriado, o futebol, o vídeo game e a saidinha com os amigos, gritam por atenção. Se o candidato já tem um bom padrão de vida, aí já era. O conforto é uma amante caprichosa. Um “motivo mais que legítimo” para abandonar os estudos naquele dia.

Aquele sonho de ver seu nome como aprovado no Diário Oficial da União vai atormentar você por um bom tempo e, periodicamente, após as cicatrizes se fecharem, você voltará a estudar.

No entanto, se você não mudar o seu padrão de comportamento, você começará, novamente, a trilhar o árduo caminho do desespero.

Como saber se estou no caminho correto?

Não há um gabarito. Esse é o problema. Mas, se você, de certa forma, consegue identificar esses pontos em sua preparação, muito provavelmente está no caminho correto:

– você sabe o que quer. Você tem um foco muito bem definido e não fica correndo que nem um doido rumo a cada edital sedutor.

– você não segue modismos sem critério.

– você não espera que um momento mágico ocorra, depois do qual você será uma pessoa super disciplinada, proativa e conhecedora de todo conteúdo. Você tem consciência de que leva um tempo de esforço disciplinado para amadurecer nas disciplinas.

– o esforço mental de sentar e estudar diminui com o passar do tempo. Estudar passa a fazer parte de sua rotina cada dia um pouco mais.

– seu rendimento nos estudos estão a cada mês um pouco melhor. Você se alegra quando acerta uma questão difícil ou entende um assunto que antes era grego pra você.

Golden Wings

Todo piloto da Marinha ostenta com orgulho, em sua farda, o brevê de uma asa. Não é uma asa qualquer parceiro, é uma asa dourada. Os pilotos da Marinha Americana enchem a boca para falar sobre suas Golden Wings, afinal de contas, na terra do tio Sam, ser piloto da Marinha é ser logo associado a Tom Cruise, no filme TOP GUN – Ases Indomáveis.

Na minha formatura de piloto, todos, sem exceção, choramos muito. Não só os alunos, mas também os familiares. Também pudera. Costumávamos brincar que cada pena da asa equivaleu a dezenas de litros de suor deixados nas cabines das aeronaves e simuladores. Foram horas e horas de dedicação exclusiva e abnegação. Intermináveis sessões de estudo tentando decorar emergências e procedimentos. Minha esposa me “tomou” tantas vezes as emergências que ela acabou decorando algumas também.

Assim como no concurso público, cada pena da asa foi conquistada no silêncio diário e disciplinado. Não havia glamour, aplausos ou reconhecimento. Era apenas esforço bruto. E nada mais.

A única mágica que existiu foi advinda da consistência, que funciona como um efeito reforçador, em que a totalidade dos esforços é maior que a soma individual de cada um.

Percebo que há alunos que começam bem, mas se deixam levar pela euforia da massa ou por desejos impulsivos de verem logo a recompensa de seus esforços. Decida mudar de vida a partir deste minuto, mas faça isso de forma sábia, contínua e utilize a disciplina para impulsionar seu avanço. Conquiste uma pena de sua asa por vez.

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Autor(a): Professor Igor Oliveira

Igor Oliveira é servidor público federal, Analista Técnico da SUSEP. Foi oficial fuzileiro naval e piloto de helicóptero na Marinha do Brasil. Igor faz parte da equipe da coordenação do Ponto dos Concursos.

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