Eu Preciso Aprender a Só Ser

Composição: Gilberto Gil – Texto de Isabel Câmara

Sabe, gente
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, aonde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer
Sabe, gente
É tanta coisa que eu fico sem jeito
Sou eu sozinha e esse nó no peito
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder
Sabe, gente
Eu sei que no fundo o problema é só da gente
É só do coração dizer não quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer
E quando escutar um samba-canção
Assim como “Eu preciso aprender a ser só”
Reagir e ouvir o coração responder:
“Eu preciso aprender a só ser”

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A partir dessa linda canção de Gilberto Gil, vamos analisar como a posição de certos vocábulos pode alterar o seu sentido na oração (e, algumas vezes, sua classificação morfológica também, ou seja, a classe de palavras a que pertencem).

Esse assunto já foi abordado em uma prova da Fundação Getúlio Vargas – Agente Tributário Estadual de Mato Grosso do Sul – e suscitou inúmeros debates.

Qual é a diferença entre “Eu preciso aprender a ser só” e “Eu preciso aprender a só ser”?

Bem, no primeiro caso, o vocábulo “só” é um adjetivo que equivale a “sozinho”. Assim, o que se precisa aprender é a ficar sozinho.

Já a resposta do coração dá outra sugestão: “é preciso aprender a só ser”, ou seja, é preciso aprender a simplesmente “ser”. Esse “só” tem valor circunstancial e recebe a classificação de “palavra denotativa”. Tem valor de exclusão – é preciso aprender nada além de SER.

Apesar de não reconhecidas pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (que as classifica à parte dos advérbios, mas sem denominação específica), as palavras denotativas diferenciam-se destes em função das palavras que podem modificar.

Os advérbios podem modificar verbos, adjetivos, outros advérbios ou orações/enunciações, enquanto que as palavras denotativas podem se referir a vocábulos de qualquer classificação, ou até mesmo a nenhum vocábulo especificamente.

Podem designar, dentre outras circunstâncias:

– INCLUSÃO: até, inclusive, mesmo, também etc.

– EXCLUSÃO:  apenas, salvo, exceto, só, somente etc.

– DESIGNAÇÃO: eis

– REALCE: cá (“Eu cá tenho de perguntar”), lá (“E eu lá sei isso!”), é que etc.

– RETIFICAÇÃO: isto é, ou melhor, aliás etc.

– EXPLICAÇÃO: isto é, ou melhor (a diferença entre este e o anterior depende da construção).

– SITUAÇÃO – afinal (Afinal, o que você quer?), agora, então (“Então, diga se já compreendeu a lição.”)

Veja um outro emprego da palavra denotativa “só”:

eu sei / as esquinas por que passei / eu sei” (letra da música “Esquinas”, de Djavan).

Esse “só” se refere ao pronome “eu” com idéia de exclusão – “ninguém além de mim” ou “de todas as pessoas do mundo, eu sei…”.

Note que não poderíamos classificar esse vocábulo como advérbio, uma vez que altera o sentido de um pronome (eu).

A questão da prova da FGV explorava a alteração de sentido e de classe gramatical de vocábulos em relação à sua posição.

“Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs.

“Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria.

No trecho acima, a inversão das palavras grifadas não provocou alteração de sentido. Assinale a alternativa em que a inversão dos termos provoca alteração gramatical e semântica.

  • novos papéis / papéis novos
  • várias idéias / idéias várias
  • lúcidas lembranças / lembranças lúcidas
  • tristes dias / dias tristes
  • poucas oportunidades / oportunidades poucas

O gabarito foi a letra (B). Antes do substantivo, o vocábulo “várias” é um pronome que atribui a “idéias” um valor indefinido – não se pode precisar quantas idéias.

Já posposto ao substantivo, passa a ser um adjetivo, equivalente a “variadas”.

Alguns questionaram a alteração gramatical provocada pela inversão dos vocábulos na opção (E). Note que o enunciado exige que a inversão tenha provocado alteração gramatical E semântica.

Em “poucas oportunidades”, o vocábulo “poucas” é também um pronome indefinido – segundo Aurélio: “em quantidade ou em grau menor do que o habitual ou o esperado”.

Já em “oportunidades poucas”, o vocábulo passa a ser um adjetivo – segundo Aurélio: “em pequena quantidade; escasso, reduzido”.

Houve, portanto, mudança na classificação morfológica da palavra (de pronome para adjetivo).

Contudo, não houve alteração semântica (sentido, significado) – ambos os vocábulos apresentam a idéia de algo reduzido, em quantidade pequena ou menor que a necessária ou esperada.

Abraço.

Professora Cláudia Kozlowski

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