Que a República está esquisita nesses últimos dias ninguém nega. Mas a situação pode se tornar mais grave quando o descuido com a Língua Portuguesa entra em cena.

No último dia 2, estava eu a ler os jornais e me deparei com o seguinte trecho de uma notícia sobre a ocasião em que o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro foi à Polícia Federal, lá em Curitiba, depor no processo de investigação contra supostos crimes cometidos pelo presidente da República:

“Durante a manhã, um homem que apoia o presidente Jair Bolsonaro agrediu um repórter de uma emissora de TV e tentou destruir equipamentos de equipes de reportagem. A Polícia Militar do Paraná interviu rapidamente e fez um cordão de isolamento entre jornalistas e manifestantes, obrigando os militantes a se afastarem da entrada da PF”.

(https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/02/interna_politica,850638/manifestantes-a-favor-de-moro-e-pro-bolsonaro-entram-em-confronto.shtml; acesso em 02/05/2020).

O caso é gravíssimo! Você não acha? Mas… calma, aí! Eu estou me referindo ao emprego indevido do verbo intervir: “A Polícia Militar do Paraná interviu…”. Estou até agora tentando entender como o repórter encaixou a forma “interviu” naquele contexto. Deve ter sido por causa da confusão entre os manifestantes, que deixou todo mundo atordoado.

Anote aí: o verbo intervir é derivado do verbo vir e segue a conjugação dele. No pretérito perfeito do indicativo, flexiona-se da seguinte forma: eu intervim, tu intervieste, ele interveio, nós, interviemos, vós interviestes, eles intervieram. A construção correta, portanto, deveria ter sido esta: ““A Polícia Militar do Paraná interveio…”. A forma “interviu” não existe. Parece que, no calor das emoções, alguém perdeu o juízo e aproximou o verbo intervir do verbo ver. Isso é caso de polícia!

Veja como a FGV já instaurou um “inquérito” em uma de suas provas para investigar o conhecimento do candidato sobre este assunto:

(FGV/Sefaz-RJ/Fiscal de Rendas/) Na frase a seguir “A liberdade supõe a operação sobre alternativas”, o verbo irregular foi flexionado corretamente. Assinale a alternativa em que se apresenta flexão incorreta da forma verbal.

a) Eles impunham condições para que o acordo fosse assinado.

b) O julgador interveio na polêmica sobre os critérios de seleção.

c) Não foi confirmado se a banca quereria dar à redação caráter eliminatório.

d) Se os autores se disporem a ratear o valor, a publicação da revista será certa.

e) É necessário que atentemos para a questão da mudança de paradigma científico.

Comentário – O verbo aludido é supor, conjugado como o verbo propor: eu suponho, tu supões, ele supõe, nós supomos, vós supondes, eles supõem (presente do indicativo).

Alternativa A: “impunham” representa a terceira pessoa do plural do pretérito imperfeito do indicativo do verbo impor (eu impunha, tu impunhas, ele impunha, nós impúnhamos, vós impúnheis, eles impunham). Flexão correta.

Alternativa B: “interveio”, cujo paradigma é o verbo vir, é a flexão do verbo intervir na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo (eu intervim, tu intervieste, ele interveio, nós interviemos, vós interviestes, eles intervieram). Flexão correta.

Alternativa C: “quereria” é a terceira pessoa do singular do futuro do pretérito do indicativo do verbo querer (eu quereria, tu quererias, ele quereria, nós quereríamos, vós quereríeis, eles quereriam). Flexão correta.

Alternativa D: no futuro do subjuntivo, o verbo dispor(-se), que segue a conjugação do verbo propor, deve ser assim flexionado: quando eu dispuser, quando tu dispuseres, quando ele dispuser, quando nós dispusermos, quando vós dispuserdes, quando eles dispuserem. Flexão incorreta.

Alternativa E: “atentemos”, que segue o verbo cantar, é a segunda pessoa do plural do presente do subjuntivo do verbo atentar (que eu atente, que tu atentes, que ele atente, que nós atentemos, que vós atenteis, que eles atentem). Flexão correta.

Gabarito – D.

Professor Albert Iglésia (Língua Portuguesa – maio/20)

Receba nossas novidades por e-mail

Autor(a): Professor Albert Iglésia

É graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB) e tem especialização em Língua Portuguesa. Ministra aulas voltadas para concursos públicos desde 2001. Iniciou suas atividades como professor no Rio de janeiro. Atualmente, leciona aulas de interpretação de texto, gramática e redação oficial em alguns cursos preparatórios em Brasília. Além disso, é professor do ensino médio de um colégio público federal no DF. Já atuou como instrutor da Esaf, da Casa Civil da Presidência da República e de outras instituições voltadas para a capacitação de servidores públicos.

Instagram did not return a 200.

Siga-nos no Instagram

Scroll Up