Prezados leitores,

O jornal Correio Braziliense publicou, no dia 3 de setembro, uma matéria sobre o polêmico projeto de lei distrital que reserva vagas em estacionamentos para grávidas e mães acompanhadas de crianças com até 3 anos. Você pode ler a notícia na íntegra no link (http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/09/03/interna_cidadesdf,385933/projeto-de-lei-que-destina-vagas-para-gravidas-causa-polemica-no-df.shtml).

Há quem não concorde com a iniciativa, mas não vou discutir aqui o mérito do projeto. Minha preocupação é outra: o emprego do acento grave e a concordância verbal num parágrafo da própria notícia escrita pela jornalista. Leiamos o tal parágrafo:

Além das vagas exclusivas para idosos e pessoas com deficiência, os estacionamentos do Distrito Federal deverão reservar espaços destinados a gestantes e mães acompanhadas de crianças com até 3 anos. É o que prevê um projeto de lei (PL) aprovado por deputados distritais. A decisão da Câmara Legislativa (CLDF) vale para as áreas localizadas em vias públicas, shoppings, centros comerciais, órgãos públicos e privados e praças. E já provoca polêmica. A determinação não foi bem recebida pela Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF), por exemplo. Para a entidade, a reserva de vagas a esse público cria dificuldades aos comerciantes e para à própria população, que sofrem com a pouca oferta de estacionamentos para a frota atual de carros da capital do país, contabilizada em 1,4 milhão. De outro lado, mães e gestantes ouvidas pela reportagem comemoram a iniciativa.

O acento grave no trecho “para à própria população” é descabido, independentemente do projeto se tornar lei ou não! O “a” é apenas artigo diante da preposição “para”. Sabemos que crase é, a grosso modo, a + a (= à).

Quanto à concordância da forma verbal “sofrem” (cria dificuldades aos comerciantes e para à própria população, que sofrem com a pouca oferta…”), o caso é discutível, assim como o próprio projeto de lei. Textualmente, a reserva de vagas dificulta a vida tanto dos comerciantes da localidade (que precisam estacionar seus carros ao chegarem para trabalhar) quanto da população em geral (os clientes desses comerciantes, entregadores, outros motoristas que precisam parar no local etc.). Portanto é possível que esses dois grupos sofram à procura de uma vaga de estacionamento. Nesse caso, o pronome relativo “que” retoma as duas categorias (“comerciantes” e “população”) e o verbo “sofrem” está corretamente flexionado no plural. Não é possível afirmar categoricamente que apenas a “população” (considerando-a distinta do grupo “comerciantes”) sofre com o problema, pois o texto diz claramente que os comerciantes também sofrem com a situação.

No meu ponto de vista, o grande vilão dessa história é o coitado do pronome relativo “que”, pois alimenta uma ambiguidade (e nem pode se defender!). Se a autora da matéria fosse mais sensível à gravidade do problema, ela nos pouparia – pobres leitores! – da polêmica, utilizando, por exemplo, o pronome relativo o qual. Veja:

a) …a qual sofre com a pouca oferta… (somente a população sofre).

b) …os quais sofrem com a pouca oferta… (os dois grupos sofrem).

Assim, nós ficaríamos de fora dessa discussão.

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Autor(a): Professor Albert Iglésia

É graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB) e tem especialização em Língua Portuguesa. Ministra aulas voltadas para concursos públicos desde 2001. Iniciou suas atividades como professor no Rio de janeiro. Atualmente, leciona aulas de interpretação de texto, gramática e redação oficial em alguns cursos preparatórios em Brasília. Além disso, é professor do ensino médio de um colégio público federal no DF. Já atuou como instrutor da Esaf, da Casa Civil da Presidência da República e de outras instituições voltadas para a capacitação de servidores públicos.

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