Olá, nobre leitor!

O último final de semana foi realmente espantoso. Todos assistimos, perplexos, à sucessão de despachos que se sobrepuseram no episódio da tentativa de libertar Lula. Em meio às falas de juízes, advogados, promotores, jornalistas etc., uma frase atribuída a Cristiano Zanin, advogado de defesa de Lula, e publicada em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/07/09/moro-se-comportou-como-se-fosse-um-inimigo-diz-advogado-de-lula.htm (acesso em 10/07/2018) me chamou a atenção: “Moro ‘se comportou como se fosse um inimigo’, diz advogado de Lula”. Não que eu queira aqui emitir um juízo de valor sobre o teor dessa declaração ou mesmo sobre a atitude do juiz Sergio Moro. Minha intenção neste artigo é simplesmente aproveitar a tal frase de Zanin para analisar aspectos morfológicos e sintáticos do “se”, que foi duplamente empregado pelo defensor do ex-presidente.

Morfologicamente, o “se” é identificado como:

  1. parte integrante do verbo (acompanha os chamados verbos reflexivos essenciais, os seja, expressam uma ação que o sujeito não pode exercer efetivamente sobre outro ser)

Ex.: A turma queixou-se da prova.

  1. partícula expletiva ou de realce (usado simplesmente por uma questão de realce ou ênfase; sua retirada da frase não afeta a coesão nem a coerência)

Ex.: Todos já se foram.

Ela riu-se com a pergunta.

  1. substantivo (acompanhado de artigo ou de pronome adjetivo)

Ex.: Nenhum “se” deixará de ser estudado.

O revisor retirou o se da frase.

  1. conjunção (conecta orações subordinadas às suas orações principais)

Ex.: Não sei se ele virá. (integrante)

Se vier, traga uma garrafa de refrigerante. (condicional; equivale-se a caso)

Se não me amas, só me resta partir. (causal; equivale-se a já que)

  1. pronome apassivador (ocorre com verbos transitivos diretos ou transitivos diretos e indiretos em estrutura de voz passiva; indica que a ação verbal recai sobre o sujeito)

Ex.: Vendem-se casas.

Doaram-se alguns livros à escola.

  1. índice de indeterminação do sujeito

Ex.: Precisa-se de ajudantes. (VTI + SE)

Brinca-se muito neste lugar. (VI + SE)

É-se feliz aqui. (VL + SE)

Ama-se a Deus. (VTD + SE + PREPOSIÇÃO)

  1. pronome reflexivo/recíproco (quando o sujeito praticar a ação sobre si mesmo/quando transmitir a ideia de que um elemento pratica a ação sobre outro, e vice-versa)

Ex.: O açougueiro se cortou com a faca.

Os parlamentares se insultaram em plena sessão pública.

Sintaticamente, o “se” (pronome reflexivo/recíproco) pode desempenhar as seguintes funções, retomando o sujeito da ação, substituindo-o:

  1. objeto direto (indica que o agente e o paciente da ação verbal são os mesmos)

Ex.: A vítima medicou-se. (= a vítima)

  1. objeto indireto

Ex.: Ele impôs-se severo regime. (…a ele…)

  1. sujeito (de um verbo no infinitivo; faz parte de um período composto cuja oração principal apresenta um verbo causativo – mandar, deixar e fazer – ou sensitivo – ver, ouvir e sentir)

Ex.: Deixou-se ficar na cadeira de balanço.

Na frase “Moro ‘se comportou como se fosse um inimigo’, diz advogado de Lula”, constata-se que, na primeira ocorrência, o se é parte integrante do verbo comportar-se e, na segunda, é parte de uma expressão expletiva ou de realce (“se fosse”). Experimente retirá-la e verá que não faz falta. Em ambos os casos, ele não exerce função sintática no período.

Vejamos agora como o conhecimento desse assunto já foi explorado em prova.

(VUNESP/TJ-SP/AGENTE DE FICALIZAÇÃO JUDICIÁRIA)

Assinale a alternativa que apresenta a mesma estrutura verbal de voz reflexiva empregada na frase – Os candidatos amontoavam-se no corredor.

a) Concebeu-se, assim, uma nova forma de viver.
b) Foi assim que o prédio se construiu.
c) Os candidatos não sabiam se estavam preparados.
d) Diante do frio, procuraram todos agasalhar-se.
e)  Os campos aravam-se com instrumentos primitivos.

Comentário

Minha dica é que você, ao se deparar com o pronome se, circule-o imediatamente e, em seguida, analise o verbo que o acompanha. Sendo esse transitivo direto, o se é pronome apassivador e a voz verbal é passiva.

Se você ainda não se deu por satisfeito, experimente transformar a voz passiva sintética em voz passiva analítica (toda passiva sintética pode sofrer essa transformação). Assim, você sepultará qualquer dúvida a respeito da voz verbal (passiva ou reflexiva).

Alternativa A: Assim, uma nova forma de viver foi concebida. = a voz é passiva, e não reflexiva.

Alternativa B: Foi assim que o prédio foi construído. = a voz é passiva, e não reflexiva.

Alternativa C: aqui a voz é ativa (o sujeito é o agente do processo verbal); o “se” é conjunção integrante que introduz oração subordinada substantiva objetiva direta.

Alternativa D: estamos agora diante de uma voz reflexiva (o “se” é pronome reflexivo); nela o sujeito é, ao mesmo tempo, o agente e o paciente do processo verbal. A transformação que vínhamos fazendo não cabe aqui.

Alternativa E: Os campos eram arados com instrumentos primitivos. = mais uma voz passiva.

Resposta – D

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Autor(a): Professor Albert Iglésia

É graduado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB) e tem especialização em Língua Portuguesa. Ministra aulas voltadas para concursos públicos desde 2001. Iniciou suas atividades como professor no Rio de janeiro. Atualmente, leciona aulas de interpretação de texto, gramática e redação oficial em alguns cursos preparatórios em Brasília. Além disso, é professor do ensino médio de um colégio público federal no DF. Já atuou como instrutor da Esaf, da Casa Civil da Presidência da República e de outras instituições voltadas para a capacitação de servidores públicos.

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