Conheci Anne em uma viagem que fiz aos EUA com minha família. Anne é garçonete num restaurante que costumávamos tomar café da manhã. Sorriso largo e olhar meio triste, Anne aparentava ser bem mais velha que seus trinta e cinco anos. Também pudera.

Na sua plaqueta está escrito seu nome e origem (Anne – Haiti). Curioso que sou, puxei assunto para saber as razões dela estar ali. Anne me contou que foi para os EUA havia cinco anos, logo após o terremoto que destruiu seu país, por meio de um programa de ajuda humanitária do governo americano. Uma espécie de “loteria”, disse ela. Na ocasião, foi uma escolha difícil, pois ela teria que abandonar o convívio de seu marido e três filhos e ir sozinha para um país estrangeiro, sem expectativas de quando seria possível levar sua família consigo.

Anne ficou três anos sem ver seus filhos, quando foi finalmente autorizada a imigração dos mesmos com a respectiva concessão de visto pelo governo americano. Perguntei pelo restante de sua família. Anne abaixou a cabeça, sacudiu e disse: “God can do everything Mr. Igor”.

Anne teve a chance de fazer uma escolha, como você e eu temos todos os dias. Ela poderia permanecer em sua casa, onde foi criada e acostumada a viver, ou então migrar para um país estranho, sozinha, mas com perspectivas de uma melhora na sua situação de vida.

Anne escolheu ultrapassar a barreira do comodismo e transportar seus sonhos para o local onde as coisas acontecem: fora de sua zona de conforto. Ora, ponha-se no lugar de Anne. Três anos sem ver os filhos não são três dias nobre colega.

Para romper a barreira da zona de conforto é preciso uma vontade grande. No caso de Anne era uma questão de sobrevivência e talvez a única oportunidade de sua vida de oferecer uma melhora significativa para sua família.

Fazendo um paralelo com nosso mundo de concurso público, podemos destacar dois tipos de pessoas:

– Aquelas cuja aprovação em concurso público vem de uma motivação muito grande. Seus esforços são guiados por motivos muito sérios, como tirar a família da pobreza ou de um local de risco. É o caso de Anne.

– O outro grupo, representado pela maioria, creio eu, querem melhorar de vida, mas não dependem da aprovação para satisfazerem uma necessidade séria e urgente.

É no segundo grupo que reside a maior parte dos “dramas” relacionados à preparação para um concurso público, pois no primeiro grupo a necessidade é gritante e serve como motivo óbvio para romper a zona de conforto. Aliás, conforto, para quem precisa realmente, não costuma nem constar na lista de prioridades.

Se a necessidade não é iminente, quando o conforto bate à porta, a disciplina costuma pular pela janela. As pessoas inventam todo tipo de desculpas para não estudar. Racionalizam, assumem a posição de vítimas, criam obstáculos que só existem em suas cabeças. É muita vontade de emagrecer, para pouca vontade de parar de comer. Fantasiam cenários impossíveis, tudo para não se submeterem à desconfortável sensação de sair da zona de conforto. Pessoas então que nunca passaram por um processo de superação na vida e agora necessitam de um emprego, sofrem muito.

Alguns chamam isso de falta de vergonha na cara. Eu prefiro um nome mais elegante e costumo chamar de falta de autoconsciência. Com efeito, pessoas que não precisam realmente de uma aprovação para resolverem um problema muito sério, necessitam de um elevado nível de autoconsciência, maturidade e disciplina para encarar a processo.

O concurso público é diferente da faculdade ou do ensino médio, onde o objetivo é sua formação. Aqui parceiro, o objetivo é eliminar você. A banca não liga a mínima se você acha ela injusta ou se você prefere ver novela e jogar Candy Crush. Ela quer os melhores. Não estou romantizando o simples, mas é fato: nem todo mundo vai passar. A maioria vai desistir pelo caminho. Quem persiste, passa. É meio clichê, mas é a mais pura verdade. Como sei disso? Ora, não há vagas disponíveis para todos.

Eu já estive nos dois grupos e sei bem do que estou falando. Quando estava na Marinha eu não precisava realmente de uma aprovação. Eu só queria melhorar de vida. Nesse caso, utilizei técnicas que me ajudaram a migrar gradualmente para fora de minha zona de conforto. Alguns exemplos:

– Começar devagar. Estudar é um hábito, assim como fazer atividade física. E, como todo hábito novo, começar devagar e ir aumentando o ritmo é sempre uma boa opção, pois você nunca se decepciona e aduba sua autoestima ao observar sua evolução.

– Antecipar a recompensa. Sempre que me pegava racionalizando, tentava antecipar mentalmente os efeitos de minha aprovação. Era como uma injeção de ânimo.

– Sessão de feedback. Costumava conversar muito com minha esposa e amigos sobre os estudos, fato que ajudava no envolvimento com o processo.

Assim que fui aprovado no meu primeiro concurso público (ANAC) me encontrava numa situação financeira terrível e me vi obrigado a mudar sozinho para Brasília. Fiz as contas e cheguei à conclusão de que somente uma aprovação em um concurso melhor me possibilitaria voltar a viver com minha esposa e filho. Aqui  a motivação era gigante. Não tinha tempo ruim. Cansei de acordar de madrugada para estudar. A missão era clara. A disciplina estava transbordando. Foram tempos difíceis, mas que serviram como inspiração para minha aprovação definitiva.

Inteligente é aquele que tem condições para melhorar e, ao invés de se encostar, luta para dar um passo adiante. Não acho que você precise de um terremoto para impulsionar seu movimento, assim como fez a Anne. Basta que você adote técnicas como ferramentas para cultivar sua disciplina. Um pouco de vergonha na cara ajuda também…ops…autoconsciência.

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Autor(a): Professor Igor Oliveira

Igor Oliveira é servidor público federal, Analista Técnico da SUSEP. Foi oficial fuzileiro naval e piloto de helicóptero na Marinha do Brasil. Igor faz parte da equipe da coordenação do Ponto dos Concursos.

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